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Sonhos arqueológicos de Corina


Corina falava de uma riqueza que vinha de dentro, Patrus falava de uma riqueza que vinha de fora. Corina procurava o ouro dentro do seu mundo interno, Patrus queria alcançar o céu, o topo do mundo e fazia Corina sentir-se tola e pequena com seus argumentos simplistas, tão tolinhos diante de quem parecia dominar a retórica.


Corina falava em arquétipo central enquanto Patrus tentava explicar-lhe a riqueza do Banco Central, as negociações, as negociatas, as comissões, os juros, a grande oportunidade de negócios para enriquecer naquele momento. O mundo de oportunidades estava lá, no alto, nas nuvens, e, Corina só procurava o aconchego dentro de si.


Para fugir dos discursos entediantes de Patrus, Corina mergulhava a alma incompreendida nos livros, vivia as histórias de pessoas desconhecidas como se fossem a sua própria história.


Tal como Cleópatra, se apaixonou por Júlio César e depois seduziu Marco Antônio, na outra semana era Nefertari “a mais bela”, “a mais perfeita”, “a amada de Mut” – a esposa querida de Ramessés II. Foi também Nerfertiti, a esposa do faraó Aquenáton e juntos desafiaram o sistema religioso egípcio e prestaram reverência a um único deus – Atón, o deus Sol que abrasava toda a humanidade. Foi Marília de Dirceu e dividiu com ele a ambição de ter uma vida simples e bucólica, foi Beatriz, símbolo do amor divino e musa inspiradora de Dante.


Perambulou pela biblioteca beneditina em um monastério medieval italiano no século XIV - conhecida como “A Rosa”. Lá estavam guardadas partes importantes da literatura grega e latina, cultuavam o infinito poder das palavras contidas nas obras milenares.


Daquela viagem medieval ficou gravado em sua memória uma frase com a qual Corina comungava: “Nada é mais fugaz que a forma exterior, que perde o viço e muda como as flores do campo com o aparecimento do outono”. A beleza exterior de uma rosa é efêmera, mas ela é um arquétipo da poesia, do amor, do belo, do encantamento. Enquanto a rosa murcha, a sua memória aveludada e sua alma perfumada continua habitando o imaginário dos poetas – e sobre o mundo imaginário Corina era mestre.


Em terras portuguesas, Corina acompanhava o guardador de rebanhos pela relva verde e em uma natureza sem gente sentava-se ao lado da paz, e sentia-se nascida a cada momento para a eterna novidade do mundo, contemplava-o sem pensar, porque pensar é estar doente dos olhos.


De volta ao Brasil, na esperança de ser amada por seus despropósitos, preferia a companhia do menino que carregava água na peneira e enchia os seus vazios com as suas peraltagens. Tal como o apanhador de desperdícios, Corina tinha respeito às coisas e aos seres desimportantes, prezava pela velocidade das tartarugas do que dos aviões, preferia a invencionática à informática.


E, assim, Corina viajou o mundo e teve vários amantes: Uther Pendragon, Sir Lancelot, Odisseu, Páris, Heitor... – sofria intensamente cada vez que o romance acabava, portanto lia lentamente, saboreando cada palavra.


Viveu ao lado de Patrus por duas décadas como se fossem “cem anos de solidão”, ficou íntima de José Arcádio Buendía e de os seus descendentes, conhecia de Riohacha à Macondo como a palma de sua mão, só não era íntima de Patrus, pelo menos não comungavam dos mesmos ideais, o que estava posto na linha do horizonte era desconhecido como as brumas de Avalon.


Hoje, dez anos os separaram e as imagens ainda não elaboradas invadiam os sonhos de Corina, o desenrolar onírico ainda a deixa com o sentimento de pequenez, de tolinha, de bobinha, ainda escuta a voz de Patrus a chamando de imbecil. Corina percebe o quão é difícil se recompor depois de um bombardeio, como é difícil jogar o entulho em uma caçamba e recomeçar a construção do alicerce. Antes da construção, vem o processo de escavação, alguns sentimentos pareciam arqueológicos. Corina fez a datação com carbono e descobriu que eram tão velhos quanto ela – Corina era uma romântica incorrigível, não era perfeita e não queria ser, só queria uma vida sustentada na verdade, na verdade do amor.


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