Ensaio sobre o filme "Batman O Cavalheiro das Trevas".

Atualizado: 6 de jan. de 2019

Aquilo que não nos mata nos torna estranhos.

Em 2009 fiz um ensaio sobre o filme Batman - O Cavalheiro das Trevas, dez anos se passaram e resolvi fazer uma releitura a partir daquilo que escrevi anteriormente. Ainda utilizando conceitos da Psicologia Analítica Junguiana, pretendo abordar o bem e o mal contido em cada um de nós, uma vez que este é um tema universal e atemporal.


Segundo Jung "somos como o Sol que alimenta a Terra e produz o que há de belo, de estranho e de mal; somos também como as mães que carregam no seio a felicidade e o sofrimento. De início não sabemos o que está contido em nós, que feitos sublimes ou que crimes, que espécie de bem ou de mal. Somente o outono revela o que a primavera produziu, e somente a tarde manifesta o que a manhã iniciou ". Significa dizer que, por mais que as religiões judaico-cristã tente transformar os homens em corpos dóceis, somente a maturidade irá nos dizer quem somos, que feitos sublimes ou que crimes cometemos ou cometeremos.

O filme , cujo nome original é The Dark Knight, foi lançado em 18 de julho de 2008, sob a direção de Christopher Nolan. Em resumo é a história do bem contra o mal: os chefes do crime organizado de Gotham City contratam o Coringa (Heath Ledger) para combater o Homem-Morcego, uma vez que se sentem acuados pelo trio formado por Batman (Christian Bale), pelo tenente James Gordon (Gary Oldman) e pelo promotor público Harvey Dent (Aaron Eckhart).


O personagem de Coringa nos fala de um psicopata com aparência de palhaço que protagoniza o mal. Ora, por que o palhaço, que é a figura cômica e burlesca de circo, que habitualmente, diverte o público com brincadeiras e anedotas, geralmente sem graça, estava ali para representar a miséria humana, a ameaça social, o obscuro, o desconhecido, o caos, enfim a própria sombra?


Em uma das cenas, Rachel, a namorada de Bruce Wayne demostra sentir aversão, repulsa pela imagem do Coringa; fui remetida então, ao período que minhas filhas eram crianças e contratei um palhaço para animar a festa de aniversário de uma delas, elas passaram a festa toda, escondendo-se do palhaço e quando inadvertidamente se deparavam com este, a resposta era um choro compulsivo.


Provavelmente, não foi por acaso que o desenhista e ilustrador americano, Jerry Robinson¹ sugeriu a figura do palhaço para representar o Coringa. Assim como para Rachel e igualmente para as minhas filhas e para muitos de nós, esta imagem representa um arquétipo ligado a algo sombrio. E, curiosamente no filme, os indivíduos esquizofrênicos, que têm como característica negativa o embotamento do afeto, são atraídos pelo Coringa, talvez, para estes, ele seja uma figura arquetípica que os identifiquem como iguais - a mesma figura que repele também exerce atração. A forma bizarra de vestir-se é um comportamento comum observado nos indivíduos esquizofrênicos, que de acordo com as regras sociais, se vestem de maneira incomum. Suas indumentárias é a representação daquilo que reprimimos em benefício do ego ideal e ao depararmos com aquela aparência, que para nós parece ser repulsiva, nosso primeiro desejo é de fuga para não haver o enfrentamento do indesejável.


Bolognesi diz que o palhaço com seu corpo disforme dá ênfase ao ridículo, através da exploração dos limites, deficiências e aberrações e que recorrem à sexualidade para realçar seus desejos adormecidos. Coringa quer explorar o limite da moral humana e seus desejos sexuais adormecidos encontrarão o êxtase total quando por fim à vida de Batman, esse será o seu gozo triunfal.


"O palhaço, então, tem uma configuração especial: opera a partir de tipos genéricos, mas confere ao tipo eleito uma caracterização individual. As características individuais adequam-se a um tipo determinado e se materializam no corpo do ator, acompanhados de indumentária e da maquiagem. Este corpo, ao contrário do acrobata, não é perfeito e acabado, o que induziria à sublimidade. O corpo do palhaço é disforme, permeado de trejeitos , e busca a ênfase no ridículo, através da exploração dos limites, deficiências e aberrações. Frequentemente, os palhaços recorrem à sexualidade, motivo maior para realçar os desejos que se mantém adormecidos. É um corpo livre das regras da moral (Bolognesi, 2002)."

O público em geral, sente um verdadeiro fascínio pelo Coringa, porque ele emana o obscuro e o desconhecido do humano, a prima-matéria do caos, fascina e amedronta. "Caos significa, corte, rachadura, cisão e também separação. De acordo com a mitologia grega, no começo era o Caos, massa rude, onde as forças latentes teriam o poder de criar e manter a vida. A esta fonte geradora de vida e energia tudo é possível e foi a partir dela que nasceram os Deuses e a matéria - os planetas e os homens (Azevedo e Silva et al, 2007)."


Os junguianos utilizam o conceito de sombra no qual repousam forças latentes, vejo aqui uma conexão entre os conceitos de sombra e caos, ambos são constituídos de uma massa rude que pode criar e manter a vida ou destruí-la. Se o indivíduo não lançar luz em seus aspectos sombrios ele poderá ser tomado por ele. Para Jung a sombra não é apenas o lado negativo da nossa psique, é também, constituída da energia instintiva, espontaneidade e criatividade. Sombra é aquela parte da psique inconsciente que está mais próxima da consciência, mesmo que não seja aceita completamente por ela. Por ser contrária a atitude consciente que escolhemos, não permitimos que a sombra encontre expressão na nossa vida; assim ela organiza em uma personalidade relativamente autônoma no inconsciente, onde fica protegida e oculta (Zweid e Abrams (orgs), 1991, p. 28) .


Coringa não só representa a sombra como foi engolido por ela. O eu totalmente dissociado de sua personalidade está submerso em sua sombra, e assim ele acredita e quer comprovar que existe um germe em todos os indivíduos, o qual os torna potencialmente criminosos. Mediante às adversidades da vida, que alteram ironicamente nossos destinos e nos faz sentir impotentes, essa energia primitiva latente se irrompe e somos tomados por ela, e só aí saberemos que espécie de bem ou de mal nos habita.


Coringa pode ser comparado com a Besta do Apocalipse ou ao diabo que quer o reconhecimento de seu poder, conhece as mazelas humanas e usa de artimanhas que colocam seus oponentes em confronto com seus próprios valores. Jung (1964) para exemplificar a sombra usou o exemplo de Fausto de Goethe, quando Deus diz: " A atividade humana pode definhar muito facilmente,/ O homem gosta do repouso total;/ Por isso, ofereço-lhe alegremente um companheiro como você,/ Que se agita e trabalha e realiza, assim como faz o demônio". O que seria do homem se não fosse o demônio que o tira do marasmo, que o põe a prova a todo instante, que o obriga a fazer escolhas? Ninguém saberia o significado do bem se não houvesse o mal para contrapor, para dialogar entre si e finalmente transcender a dualidade. Somos anjos e demônios, o bem e o mal está em nós contido, são aspectos de nossa personalidade que precisam ser integrados em busca da totalidade.


Sereno descreve ao mestre Sêneca (4-65 d.C) o seu lado obscuro: " Olhando para o meu interior constato certos defeitos tão a mostra que poderia tocar com a mão. Há outros menos salientes que se acobertam em região obscura. Parecem com inimigos imprevisíveis que assaltam, no momento para eles oportuno, a gente duvida estar em pé-de-guerra ou tê-los como parceiros na paz (Sêneca, s/d)". Sereno que havia pautado sua vida na virtude estava exteriorizando ao mestre suas angústias e dúvidas - se havia valido a pena ou não, optar pela virtude. Esta angustia de Sereno é uma uma angustia humana e nos sugere que o humano é frágil em seus princípios morais, e é exatamente neste ponto que o Coringa age.


Logo no início do filme, Coringa incentiva seus companheiros a matarem uns aos outros. A solidariedade é algo sublime no ser humano, a responsabilidade por outrem é o que de mais substancial há em mim e que me constitui como humano (Scoralick et al apud Lévinas). Lévinas afirma a prioridade do Outro e a emergência de uma responsabilidade não escolhida — é pela ética que nos tornamos nós próprios. A experiência fundamental é, deste modo, a experiência do Outro na sua singularidade, na sua alteridade (Lévinas apud Soares).


Nem o Coringa e tão pouco seus companheiros possuem este algo substancial que poderia constitui-los humanos (no sentido mais profundo da palavra), e a sua ética ou a ausência de ética os torna assassinos.


O que nos caracteriza humanos é o fato de termos uma consciência e de acordo com Jung, o homem a desenvolveu vagarosa e laboriosamente, num processo que levou um tempo infindável, até alcançar o estado civilizado e esta evolução está longe da conclusão, pois grandes áreas da mente ainda estão mergulhadas nas trevas.


O Coringa representa a prima-matéria que deu origem ao homem, antes mesmo deste alcançar o estágio da civilização e sua consciência ainda é primitiva, é formada do obscuro lodo do pântano.


Mas, nem mesmo o pântano foge à dualidade, no lodaçal provocado por suas águas estagnadas, existe uma elevada área de biodiversidade que tem papel fundamental na conservação das espécies e que podem ser uteis para o controle da poluição hídrica.


Neste filme, Batman representa o bem, vilão e herói são faces da mesma moeda. Sendo assim, Batman emergiu do pântano, nasceu do caos, é feito da mesma matéria que o Coringa. É a energia criativa, instintiva e vital que energizada, emana da sombra e adquire uma força sobre humana para lutar contra o mal, é a força da criatura contra o criador.


Bruce Wayne é um personagem quase patético que vive a persona de um milionário excêntrico e para sentir-se real, se transforma fisicamente em Homem-Morcego e num processo de dissociação ganha força no papel de justiceiro. Segundo Jung, os primitivos chamam a dissociação de perda da alma, porque acreditam que o homem tem uma alma do mato, além da sua própria, e ao escolher uma máscara simbolizando determinado animal ou ave, está apenas representando a alma com a qual se identifica.


A vida do milionário Bruce Wayne é vazia de significados, não há sonhos ou desejos que não possam ser realizados, não há barreiras que não possam ser transpostas, seu mundo, do ponto de vista material está pronto e acabado, como uma obra de arte assinada e emoldurada. Rachel se renderá ao seu amor caso ele deixe de ser o Homem-Morcego, afinal, qual mulher deseja dormir com um mancebo milionário e acordar com um Homem-Morcego dependurando de ponta cabeça no lustre do quarto?


Para ficar com Rachel terá encontrar a sua totalidade, talvez não exista esta possibilidade, uma vez que na dissociação, a psique foi fracionada e a integração poderá ser um processo longo e com grandes chances de fracasso ao vislumbrar os ganhos e as perdas que contabilizará ao deixar de ser o Batman. O Homem-Morcego parece ter uma existência mais interessante e repleta de significados comparada com a morna existência de Bruce Wayne ao lado da inexpressiva Rachel. O que farão após o casamento? Um tour em volta do mundo?


O bem e o mal nasceram das forças latentes contidas na massa rude do caos, eles se completam. O mal não é de todo mal, ao apanhar do bem ele sente certo prazer, porque de alguma forma tem consciência daquilo que ele próprio representa e deseja ser punido, mesmo que inconscientemente.


Sabe-se que Coringa carrega uma cicatriz em seu rosto que lhe dá um sorriso forçado. Uma cicatriz feita com navalha pelo próprio pai. O pai representa a lei, é ao pai que recorremos em busca de segurança. Ao ser usurpado pelo pai, Coringa perde a confiabilidade no mundo, o mundo deixa de ser um lugar previsível e ele se torna um ressentindo. Segundo Nietzsche, o ressentido é um covarde que não consegue fazer valer seus desejos, não luta pelos seus próprios sonhos, o silêncio daquele que foi usurpado pode degenerar em ressentimento, e a principal característica do ressentido é ruminar esse acontecimento e planejar, por longo período, uma vingança (Nietzsche apud Pereira).


Coringa deseja vingar-se da humanidade, destruindo-a, ou melhor, quer a autodestruição dos indivíduos através da maldade que cada um carrega em sua sombra, assim como Thomas Hobbes (1588-1679), Coringa acredita que o homem é o lobo do homem - homo homini lupus - o homem é o inimigo do próprio homem, a natureza humana é regida pelo egoísmo e pela autopreservação. Não importa o próximo nem os sentimentos, o homem não nasceu com o instinto moral e social. Todos nasceram iguais, com os mesmos desejos naturais (Garrido et al apud Hobbes, 2012).


O grande êxtase de Coringa foi quando transformou o promotor público Harvey Dent, em um assassino vingador. Um homem acima de qualquer suspeita, centrado na busca pela verdade e na neurótica convicção que tinha o poder de colocar a ordem em Gotham City. Na verdade era um hipócrita, uma vez que carregava uma moeda que tinha dos dois lados a mesma representação - uma fraude. Talvez uma característica daquele que não sabe ouvir o outro, daquele que tem na sua crença, a expressão máxima da verdade. Seu papel social de promotor público transformou o eu em persona e o distanciou de sua verdadeira natureza.


Esse tipo de pessoa é presa fácil para que o mal atinja seus objetivos, ironicamente passou a ter duas faces, diferentemente da moeda da sorte que carregava no bolso. Retomo Sêneca e faço um pequeno recorte do capítulo que ele fala sobre "A prática da autenticidade que se opõe à falsa imagem de si": - "De fato, muitas circunstâncias ocorrem que, contrariando a vontade, findam por desnudar, por maior que seja o empenho da simulação. Eis porque a existência de quem vive atrás da máscara não é feliz, pois não está isenta de perplexidades...(Sêneca, s/d)."


O promotor público foi enterrado como um herói porque a massa precisa de mitos que simbolizem a verdade, a proteção, pois esses são mediadores da esperança nas grandes dificuldades.


A tese do Coringa foi derrubada quando nem mesmo os presidiários que estavam sendo transferidos em um barco, e os cidadãos de bem que estavam em outro barco, acionaram o "start" que detonaria um deles. Sem nenhuma certeza, sem nenhuma garantia se arriscaram para salvar o outro, que se quer conheciam. Colocaram-se no lugar do outro e não desejaram para eles aquilo que também não queriam para si - foram movidos por um ato de alteridade e fé e, assim, o bem prevaleceu. Venceu Lévinas: é pela ética que nos tornamos nós próprios. A experiência fundamental é, deste modo, a experiência do Outro na sua singularidade, na sua alteridade (Lévinas apud Soares).


Referências:

¹https://pt.wikipedia.org/wiki/Jerry_Robinson


AZEVEDO E SILVA, H.C. et al. Exigências Contemporâneas e o Desenvolvimento do Falso-self: reflexos na saúde do indivíduo. Disponível em <http:www.ipjbr/2007> Acesso em 17 maio 2009, p.240-269.


BATMAN O CAVALHEIRO DAS TREVAS. EUA: Waner Bros. Studios Entertainment Inc, 2008. Direção: NOLAN, C. 1 DVD 153 min. Idiomas: Inglês e Português.

BOLOGNESI, Mário Fernando. Palhaços. São Paulo: Unesp, 2003 O Circo “Civilizado”.


GARRIDO, Leandro; PACIULLO, Luisa. O homem é o lobo do homem. In: Revista eletrônica Estética, p. 23-25, janeiro/junho de 2012. Disponível em <http://puc-riodigital.com.puc-rio.br/media/O%20homem%20%C3%A9%20o%20lobo%20do%20homem%2023a25.pdf> Acesso em 01 jan 2019.


JUNG, C.G. Fundamentos da Psicologia Analítica. Obras Completas de C.G.Jung, v.18/1.Petrópolis: Vozes, 1985.

JUNG, C.G. O Homem e Seus Símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992.


PEREIRA, Luciano. A vingança adiada. In: Discutindo Filosofia, ANO I, Nº 6, Escala Educacional.


SCORALICK, K. et al. Emmanuel Lévinas: ética e alteridade. In: Discutindo Filosofia. São Paulo, ano 1, n.4, p.30-39, s/d.


SÊNECA. A Tranquilidade da Alma - A Vida Retirada. Tradução: FERACINE, L. São Paulo: Escala, s/d.


SOARES, Maria da Conceição. Emmanuel Lévinas e a Obsessão do Outro. Disponível em <https://repositorio.ucp.pt/bitstream/10400.14/18499/1/V03001-169-194.pdf> Acesso em 27 dez 2018.




ZWEIG, CONNIE; ABRAMS, JEREMIAH. Ao encontro da sombra: o potencial oculto do lado escuro da natureza humana. São Paulo: Cutrix, 1991.




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