CONVERSAR : trocar versos com alguém
- Maria Angelina Marzochi

- 17 de mar. de 2019
- 2 min de leitura
Atualizado: 26 de jan.

O clima está pesado, as relações estão complicadas, alguns amigos deixaram de ser amigos, famílias ficaram divididas. O último Natal foi o Natal do silêncio. Deletamos da rede social pessoas que descobrimos pensar diferente de nós. Eu mesma deletei meu perfil do Facebook por quatro meses, porque precisava de um tempo para mim. Precisei voltar por questões profissionais, mas posso afirmar que existe vida além do Facebook e do Instagram.
Venho tentando compreender o que está acontecendo no Brasil e no mundo. Tenho buscado respostas em autores do pós-guerra para entender a maldade humana, que vem como uma onda de tsunami: leva tudo o que encontra pela frente e depois reflui, deixando um rastro de destruição por onde passou.
Hoje encontrei, em um velho caderno da faculdade, uma anotação sobre a palavra CONVERSAR – (COM + VERSOS) = “TROCAR VERSOS COM ALGUÉM”. Era uma aula sobre Fenomenologia e Existencialismo. O autor estudado era Martin Buber (1878-1965), e as anotações diziam: “A linguagem é a expressão viva do que sou: a fala, minhas expressões, meus gestos, enfim, a forma de comunicar-se no mundo é a expressão de quem eu sou. A linguagem e o pensamento estão implicados no diálogo.”
Em seguida, havia uma frase de Ludwig Binswanger (1881-1966): “Por trás de cada palavra falada ou escrita, encontra-se um ser vivente.” Ou seja, estou comunicando minha vivência imediata através de cada palavra falada ou escrita por mim.
A pergunta que me veio foi: “O que estamos comunicando nas redes sociais?”
Estamos comunicando o vazio da nossa existência, o desamparo diante do lado sombrio que as pessoas deixaram escapar neste ano eleitoral?
O vazio é o nada. Quando me relaciono com o vazio, sinto angústia. Viver angustiado é uma maneira preocupada de viver.
No lugar do nada existiam pessoas, coisas, sonhos que precisaram ser abandonados e deixaram de existir para mim em vida.
Para elaborar essa angústia, eu a transformo em medo, pois o medo é mais palpável: sinto medo de acordar e ler o jornal, sinto medo das reações às minhas postagens na rede social, sinto medo de expor minhas ideias a qualquer pessoa.
A boa notícia é que o tsunami vai refluir e voltar para o fundo do oceano, de onde nunca deveria ter saído. Ele vem e vai embora, assim como a angústia. Vamos ter que juntar os cacos e reconstruir o que foi destruído, pois assim se constitui a vida do ser vivente.
Para aqueles que têm consciência, eu proponho a CONVERSA. Vamos trocar versos: é o que podemos fazer no momento.
Maria Angelina Marzochi – 17/03/2019




Comentários