UM CAMINHO POSSÍVEL PARA O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL DO SER


As crianças que nasceram nos últimos vinte anos sofreram diferentes estímulos em comparação com as crianças nascidas em décadas anteriores.    Em função do avanço tecnológico, nós adultos passamos a nos relacionar de forma diferente, cada dia mais individualistas e de maneira acentuadamente narcísica, e, consequentemente, passamos esses valores para nossas crianças.    A vida virou um grande “fast food”, tudo tem que ser rápido, não temos mais paciência nem para nos relacionar, afinal “tempo é dinheiro”, e é do dinheiro que precisamos para manter o nosso narcisismo.
Um caminho possível para o desenvolvimento sustentável do ser

As crianças que nasceram nos últimos vinte anos sofreram diferentes estímulos em comparação com as crianças nascidas em décadas anteriores.


Em função do avanço tecnológico, nós adultos passamos a nos relacionar de forma diferente: cada dia mais individualistas e de maneira acentuadamente narcísica, e, consequentemente passamos esses valores para nossas crianças.


A vida virou um grande “fast food”, tudo tem que ser rápido, não temos mais paciência nem para nos relacionar, afinal “tempo é dinheiro”, e é do dinheiro que precisamos para manter parte do nosso narcisismo.


E na falta de paciência, terceirizamos a nossa presença equipando o quarto de nossos filhos com smart TV, computador, smartphone, tablet, e assim, uma criança dos 2 aos 5 anos, que passa em média três horas por dia em frente à TV, quando chegar aos 5 anos, terá visto 5.000 horas de televisão.


É quase inimaginável pensar na quantidade de informações que esta criança recebeu durante 5.000 horas - esse é um dos pontos que as torna diferentes das crianças nascidas em décadas anteriores.


Esta criança, hiper estimulada chega na escola, uma instituição, que vem se mantendo cristalizada dentro de um padrão criado para atender as crianças nascidas no século passado, que tinham outro padrão de convivência social e familiar, cujos estímulos eram outros e são colocadas sentadas, como diz Mário Sérgio Cortela - em um banco de pau durante seis horas do dia vendo alguém escrever com uma pedra em outra pedra, falando para ela coisas interessantíssimas, coisas fundamentais para a existência humana, como por exemplo: o nome dos sete primeiros reis de Roma, (os quatro latinos e os três etruscos), qual  é a capital da Tanzânia, qual é o peso atômico do Bário, como você identifica a diferença entre um adjunto adnominal e um complemento nominal, quais são os afluentes da margem direita e esquerda do Rio Amazonas, como você identifica uma mitocôndria, como você calcula a trajetória de uma bala de canhão e por ai vai.


Como a criança não pode escapar fisicamente pelos portões da escola que estão trancados, ela escapa mentalmente.  Se a criança escapa mentalmente ela não aprende o conteúdo escolar, isso é grave por duas razões, primeiro, porque a criança pode desenvolver uma baixo autoestima, uma vez que não consegue se enquadrar naquele sistema, e para o sistema é péssimo porque ele precisa cumprir metas. Para a instituição sobreviver no mundo do capitalismo ela precisa fazer parte das estatísticas de escolas que mais aprovam - para a meritocracia o que importa são os números.


A indústria farmacêutica sempre tão atenta, subsidiou pesquisas para encontrar uma solução para as “crianças que escapam mentalmente” . Nomeou esse comportamento de TDAH (Transtorno de Atenção e Hiperatividade) e apresentou a solução em comprimidos, basta tomar RITALINA, uma anfetamina que promete trazer foco para a criança.


Talvez nossas crianças estejam nos querendo dizer que o que está posto e cristalizado nesta sociedade hipermoderna, não está adequado para o seu desenvolvimento normal e que deve ser derrubado e reconstruído.


Porém, diante da dobradinha APA (American Psychiatric Association) e indústria farmacêutica americana, os gritos irritantes de nossas crianças, suas ansiedades e desatenção engrossaram ainda mais a edição de 2013 do DSM-V (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais).  


As mães pressionadas pela escola aceitam a prescrição médica que indica o tratamento com anfetamina (por exemplo: RITALINA), assim, o seu rebento poderá adequar-se a um sistema inadequado, manter a atenção em uma escola desatenta.


O consumo destas drogas no Brasil chega ser alarmante, tanto que, até a Organização das Nações Unidas vem alertando o Governo brasileiro a respeito: entre estudantes brasileiros do 1º e 2º grau (ensino fundamental) das dez maiores capitais do país, 4,4% revelaram já ter experimentado pelo menos uma vez na vida uma droga tipo anfetamina. O uso frequente (seis ou mais vezes ao mês) foi realizado por 0,7% dos estudantes. Este uso foi mais comum em meninas. Outro dado preocupante diz respeito ao total consumido no Brasil: em 1995 atingiu mais de vinte toneladas, o que significa muitos milhões de dose. (CEBRID - Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas apud Portal da Educação, Curso de Psicofarmacologia, módulo V, p.138, s/d).


Porém as mães não são informadas que as anfetaminas abrem a porta para outra anfetamina, a MDMA (metilenodióximetanfetamina), também conhecida como Êxtase, a pílula da felicidade. Ela própria inicia seu filho no mundo das drogas e, o que é pior, ela o faz sempre orientada por um médico - aquele que deveria ser o porta voz da prevenção e promoção da saúde e não o contrário.  


As mães também não são informadas que geralmente a RITALINA (anfetamina) causa os mesmos problemas que deveriam tratar – falta de atenção, hiperatividade e comportamento impulsivo; que algumas crianças se tornam robôs, ficam letárgicas, deprimidas e introvertidas; que a RITALINA pode retardar o crescimento da criança ao romper os ciclos dos hormônios de crescimento liberados pela glândula pituitária.


As mães não são informadas que, a RITALINA , geralmente, causa graves distúrbios no cérebro da criança, que pesquisas científicas mostraram que a também pode causar atrofia ou outras anomalias no cérebro.


As mães não são informadas que a RITALINA   reprime as atividades criativas, espontâneas e independentes na criança —  transformando-as em corpos dóceis que ajudam a engrenagem escolar e familiar a funcionar dentro do padrão da normalidade desejada.


Utilizando técnicas sofisticadas para estudar o cérebro humano, pesquisadores norte-americanos concluíram que a RITALINA (cloridrato de metilfenidato), tomada por milhões de crianças no mundo inteiro, produz o mesmo efeito sobre o cérebro que a cocaína.


Os estudos também mostraram que as crianças hiperativas que tomam RITALINA são mais propensas a se tornarem toxicodependentes do que aquelas que não tomam o medicamento. A RITALINA também pode alterar todo o perfil biodinâmico dos usuários e causar o mesmo efeito devastador que o uso prolongado de cocaína (Fonte: Journal of Neuroscience, 2001, 21: RC121).


Vamos imaginar uma criança do sexo masculino que foi diagnosticada com TDAH (Transtorno de Atenção e Hiperatividade) e medicada durante o período escolar com RITALINA , e esta mesma criança em questão foi criada dentro de um condomínio fechado, numa redoma de vidro, em um mundo que parecia mágico longe da realidade externa: brinquedos caros, boas roupas, fartura na mesa, viagens para a Disney e Nova Iorque, férias na praia. Hipoteticamente vamos considerar também, que o pai era um importante empresário que trabalhava doze horas por dia para sanar suas próprias necessidades narcísicas e para manter o alto padrão familiar. Estando o pai na maioria do tempo ausente, esta criança do sexo masculino, durante sua formação teve muito pouco contado com homens mais velhos, tudo que sabia do pai, chegava pela ótica da mãe. Na escola, igualmente, o quadro de profissionais era composto por mulheres na sua grande maioria.


Este menino chega na adolescência com poucas referências sobre o mundo adulto masculino, e contextualizando como age um jovem na adolescência, podemos pensar que é a fase de diferenciar-se de seus pais e criar uma nova identidade. Nesta fase o jovem sente-se imortal, ele precisa viver a jornada do herói. 


Podemos substituir o nosso personagem, por um menino criado na periferia pela mãe ou pela avó, longe das referências masculinas, que também teve péssimo desempenho escolar e foi medicado na rede pública de saúde com RITALINA .


De acordo com Campbell (2014), a nossa sociedade não fornece aos jovens, rituais por meio dos quais eles se tornariam membros da tribo, da comunidade. Nas sociedades primitivas existem os rituais da puberdade: os dentes são arrancados, dolorosas escarificações são feitas, há circuncisões e outros rituais se fazem presentes para que o jovem abdique para sempre do seu corpinho infantil e passe a ser algo inteiramente diferente.


Quando eu era criança, nós vestíamos calças curtas, você sabe, calças pelos joelhos. E chegava então o grande momento em que você vestia calças compridas. Quando é que eles vão saber que já são homens e precisam abandonar as criancices? (CAMPBELL, 2014, p.8).


Para Campbell (2014) o que temos hoje é um mundo desmitologizado, e os jovens que, por exemplo, crescem na periferia de Nova Iorque, fabricam os seus próprios mitos, basta ver os grafites por toda a cidade. Os adolescentes têm suas próprias gangues, suas próprias iniciações, sua própria moralidade, apesar de estarem fazendo o melhor que podem, se tornam perigosos porque suas leis não são as mesmas da cidade, uma vez que eles não foram iniciados na sociedade.


O autor diz que o que estão ensinando nas escolas não é sabedoria da vida. Nas escolas aprendemos sobre tecnologias e estamos acumulando informações, e hoje há uma tendência a criar especialistas cuja visão de mundo fica limitada ao seu campo específico de estudo. Não estamos mais acostumados com a literatura de espírito, e antigamente as literaturas grega e latina e a Bíblia faziam parte da educação. Ao serem suprimidas todo o Ocidente perdeu a tradição de informação mitológica.


A internet veio ocupar esse vazio, e nem sempre o seu conteúdo pode ser benéfico para um jovem em formação.


O que vemos hoje é uma grande apologia à maconha, diferentes postagens desmistificando o uso da maconha, vários países liberando seu uso recreativo e medicinal ¹. Cada vez mais somos informados sobre pesquisas que estão sendo realizadas para verificar a eficiência da maconha no tratamento de diferentes enfermidades.


A Nature, importante revista científica internacional, traz uma pesquisa  sobre a eficiência dos canabinoides no tratamento de crise do pânico ², mas pouco se fala sobre a correlação entre o uso da maconha e a incidência de esquizofrenia ³.


Esta avalanche de informações sobre a maconha traz como consequência a naturalização do uso da droga, confundindo os pais e dando embasamento para que o jovem ache normal o seu consumo.


Dentro desse contexto, este jovem adolescente, que está vivendo a jornada do herói, que foi tratado com anfetamina na infância, tem maior probabilidade de iniciar-se com as drogas ilícitas, principalmente, a maconha que é de fácil acesso e com o “Êxtase” tão comum nas baladas, e também com a cocaína que se pode comprar em qualquer esquina.


Acredito que a informação ainda é o melhor caminho para a conscientização dos pais, dos adolescentes, dos educadores, dos profissionais da saúde e dos administradores públicos e do judiciário, visto que a repressão às drogas da forma que está estabelecida, não trouxe nenhum avanço para o tema, as cadeias estão superlotadas de jovens vítimas deste sistema. 


Se faz necessário debater estes temas até à exaustão, e não adianta falar para um jovem que as drogas ilícitas são ruins, porque é uma mentira à primeira vista, uma vez que ela produz estados alterados de consciência que os tiram da dura realidade da vida, temporariamente lhes devolve a bola dourada perdida na infância.


Carlos Byington (médico psiquiatra e analista junguiano) defende que é pela estética que conseguiremos melhores resultados na prevenção do uso de drogas ilícitas, em sua opinião deveríamos mostrar para o jovem imagens de um pulmão em perfeito estado de funcionamento e fotos de um pulmão deteriorado pelo uso de substâncias ilícitas.


A escola poderia substituir alguma matéria não relevante, por aulas de biologia, na qual a criança desde muito cedo, poderia aprender como funciona o seu corpo humano através de imagens 3D e o que acontece em seu organismo quando ele entra em contato com substâncias tóxicas.


Este tipo de aprendizado abriria a porta para uma consciência mais ampla, não só com relação às drogas, mas com relação a todo tipo de substância que o indivíduo escolhe consumir e poderíamos, então, caminhar para um pensamento ecologicamente correto e para o desenvolvimento sustentável do ser.


Referências:


Byington, Carlos Amadeu Botelho. Curso de Psicologia e Psicopatologia Simbólica Junguiana. Instituto Sedes Sapientiæ, 2015 - Aulas 01-33. Transmitidas pelo Portal Jung na Prática.

Campbell, Joseph. O Poder do Mito. São Paulo: Palas Athena ,2014.

Cortella, Mário Sérgio. A criança em seu mundo. Disponível em <https://www.youtube.com/watch?v=-y1-o_kJ5Kk&t=10s> - Café Filosófico. Publicado em 03 fev 2013.

¹ <http://www1.folha.uol.com.br/asmais/2015/09/1671352-conheca-os-paises-onde-o-porte-de-drogas-e-liberado-para-uso-pessoal.shtml>

² <http://www.nature.com/neuro/journal/v16/n9/full/nn.3480.html#access>

³ <http://www.scielo.br/pdf/rbp/v25n3/a03v25n3.pdf>


Maiores informações sobre a Ritalina podem ser obtidas através dos sites:

Hyperactive Children's Support Group <www.hacsg.org.uk>; 

The Food Commission (UK)< www.foodcomm.org.uk>); 

Jurídico High Tech

<www.juridicohightech.com.br/2014/03/ritalina-cocaina-legalizada.html>

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