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O relógio que chegou atrasado


Na tentativa de compreender-me volto ao passado e vou à procura de histórias de família, volto duas gerações para olhar para o casamento da minha avó e desvendar a linha que nos conecta nesse tecido feminino que, mesmo diante das tensões não esgarçou, mas deu pano para muita roupa.


Felício Lambert viera criança para o Brasil, a mãe, D. Ambrosiana Neri colocou o que era possível em algumas malas, o pai, Sr. Tommaso Lambert correu atrás de conseguir embarcar a família no vapor G. Gottardo que estava prestes a zarpar para a cidade de Santos, abandonaram o que haviam construído, era preciso fugir o mais rápido possível para salvar os filhos que foram convocados pelo governo de Mussolini. Era tempo de guerra.


Eu ainda era uma menina quando ele me contou que o pai tinha uma plantação de uvas em algum lugar da Itália, em algum lugar perto de Veneza. Naquele tempo não me dei conta de que aquela história também era a minha história, era muito menina para perceber a dimensão daquele momento e saí para brincar, me distrai com outra coisa. A guerra, a Itália, Veneza eram lugares tão longínquos que minha imaginação não podia alcançar, a manga rosa eu conseguia alcançar com uma vara de bambu, então fui para o quintal viver minhas aventuras de criança.


Depois que meu avô Felício Lambert se foi, percebi que eu pouco sabia a respeito daquele homem que tanto amei e tantas vezes me culpei por não ter me apropriado de suas histórias, não sei como foi para ele, enquanto criança, sair fugido da sua própria casa, ser colocado em um navio pelos pais e partir para uma terra distante em uma viagem de trintas dias ou mais para chegar do outro lado do oceano em um país que não falava o seu idioma. Agora é tarde, ele não está mais aqui, e para saber um pouquinho preciso costurar pedaços que ainda trago em minha memória.


Felício Lambert cresceu trabalhando na lavoura de Firmino D’Aguiar, na região de Ribeirão Preto, arando, plantando e colhendo aquilo que nunca chegara à sua mesa. A primeira esposa, Laura, morreu em decorrência de um parto complicado – mãe e filho. A vida só estava começando com seu jeito desastrado de ser e trazer dor, em um dia Felício acreditava que teria uma família e no outro estava sozinho enterrando Laura, o filho e os seus sonhos.


Depois casou-se com a minha avó, Virginia Bardo, da qual herdei meu nome, ela não morreria de parto, muito pelo contrário, Virginia passou grávida noventa meses de sua vida, teve dez filhos trazidos ao mundo pelas mãos das habilidosas parteiras que nada conheciam sobre obstetrícia, mas sabiam sobre mulheres e seus corpos, eram metade anjo metade bruxas, tinham conexão com Deus e com a natureza selvagem do feminino, conheciam as ervas e dominavam as técnicas para conduzir as crianças ao mundo.


Nunca vi uma foto da minha avó Virginia ainda jovem, então para mim ela nasceu velha, daquele jeitinho que ela sempre foi, franzina, com a coluna levemente curvada pelo peso dos dias, de coque no alto da cabeça branquinha, com seus retos vestidos floridos e as duas orelhas rasgadas pelo peso dos brincos. As orelhas rasgadas de minha avó é uma outra história que não sei ao certo e nunca saberei, acho que nunca quis magoá-la perguntando porque suas orelhas eram rasgadas, ela era tão especial para mim que isso não importava. Ela pouco sabia do mundo, só sabia cuidar da casa, dos filhos e do marido, não gostava de assuntos longos, se perdia nos detalhes das conversas que não eram objetivas, preferia o silêncio, não sei se por temperamento ou por submissão em um tempo que a mulher não tinha voz.


Quanto mais filhos Virginia Bardo e Felício Lambert traziam ao mundo, mais mão-de-obra havia para ser explorada na lavoura do patrão. Em uma noite escura saíram fugidos da fazenda Pau Alto, por mais que trabalhassem sempre estavam em débito com o fazendeiro Coronel Malachias Garrido, que fornecia os materiais básicos para a sobrevivência dos colonos e descontava do soldo no final da colheita, mas as contas não fechavam e os colonos ficavam presos ao dono da terra. Era uma nova forma de escravidão que os fazendeiros brasileiros aprimoraram com a chegada dos milhares imigrantes italianos, o jeito foi fugir na calada da noite. E, assim, a vida seguiu e nem mesmo perder os quatros dedos de uma das mãos em um moinho de cana-de-açúcar tornou Felício Lambert inábil para o trabalho, seguiu firme trabalhando até próximo ao final de sua longa vida, morreu com mais de noventa anos.


Filhos criados, filhos casados, filhos no mundo, cada qual escolheu o seu modo de viver, e minha mãe e o meus tios saíram em busca de seus destinos para além da casa do pai. Agora e assim como no princípio Virginia Bardo e Felício Lambert só tinham um ao outro, estavam sozinhos novamente, mas muitas coisas aconteceram, muitas palavras não ditas foram se amontoando e formando um rio de más águas que não puderam ser choradas e se transformaram em uma lagoa escura de mágoas. Desejos reprimidos já estavam a mofar no fundo da alma, necessidades não satisfeitas foram se acumulando ao longo do relacionamento longo, o silêncio foi tomando o lugar da fala e o não dito ficou entalado.

A vida já não era tão dura como antes, viviam com conforto, então meu avô Felício sentiu vontade de fazer um agrado para a minha avó Virginia, afinal ela merecia, tivera uma vida sofrida sempre cuidando dos filhos e das coisas da casa. Já estava decidido, compraria um relógio de pulso, na certa ela ficaria feliz, nunca tivera um relógio.


Felício, feliz à sua maneira contida, entregou a Virginia o embrulho conforme o relojeiro providenciou, em papel de presente e fita de cetim. Minha avó Virginia, surpresa, mas contida, pegou o pacote meio que sem jeito, abriu e teve um acesso de raiva, não quis nem olhar direito, perdeu a compostura, devolveu-lhe injuriada e o silêncio entalado se fez ouvir. “Dinheiro desperdiçado, tempo desperdiçado, que bobeira é essa agora? Não quero isso, não preciso disso, toma, leva de volta”.


Meu avô Felício com o pacote na mão, atônito, confuso olhava para o pacote e olhava para a minha avó Virginia e só conseguia pensar que a única coisa que desejou foi agradá-la, surpreendê-la e não conseguiu. Estavam velhos, haviam vividos tantos desatinos, agora era a hora de viver em paz o resto de vida que ainda lhes restavam. Fracassou. Talvez não houvesse mais tempo para as devidas reparações. Com o pacote meio aberto meio fechado, segurando em suas mãos envelhecidas e trêmulas pelo inesperado, chorou como uma criança o choro contido em uma vida.


Virginia sentiu raiva e revolta, teve vontade de atirar longe aquele trem, teve vontade de quebrar em mil partes aquele maldito relógio. Sentia uma reviravolta por dentro, estava tudo embaralhado, não sabia compreender tantos sentimentos e pensamentos que brotavam em um só turbilhão, era como água represada querendo estourar a comporta. Esperou tanto. Agora isso. Era como se a última chance tivesse sido perdida. Não queria que tivesse sido assim, mas não conseguia deixar de sentir raiva. Não sabia se era raiva da vida, raiva de si ou raiva de meu avô, a raiva contida em uma vida transbordou e a fala enlatada criou botulismo e contaminou o ambiente.


O relógio viera fora de hora, para marcar o tempo do não tempo, o tempo perdido, o tempo que escorregava pelas suas mãos e anunciava que agora era tarde. Era um presente de grego, pois denunciava que minha avó não havia sido alfabetizada, não sabia ler as horas, e para que Virgínia leria as horas se elas estavam se esvaindo? Era um presente que sinalizava que minha avó não aprendera os símbolos do seu tempo, não conhecia os números, não sabia escrever o seu próprio nome e tão pouco ler qualquer palavra que fosse. Fez com que ela se lembrasse que havia vivido como estrangeira em seu próprio país, foi prisioneira do não saber. Um presente que arrancou amarguras guardadas há tempos em sua velha alma, nunca pôde se expressar em sua plenitude porque não dispunha de ferramentas. Esperou por reconhecimento e o reconhecimento veio em forma de um presente que não podia aceitar, não tinha serventia a não ser fazer o papel de um promotor acusando que já era tarde.


Mesmo as mulheres da minha família não compreenderam a importância da atitude colérica da minha avó Virgínia, como mulheres submissas que eram, esperavam que minha avó aceitasse calada o relógio e o agradecesse, afinal de contas meu avô Felício estava fazendo um agrado. Ela deveria aceitá-lo, guardar em uma das infinitas gavetas, nas quais ela amontou seus sentimentos por anos a fio e depois daria de presente para alguma neta que dominasse a leitura. Minha avó Virginia foi por estas mulheres julgada e disseram que ela tinha uma natureza ruim.


Não posso culpar o meu avô Felício pela falta de sensibilidade ao comprar um relógio de pulso para uma pessoa que não sabia ler, com a qual ele havia vivido a maior parte da sua vida, era um homem simples, fruto do seu tempo.

Porém o grito da minha avó Virgínia libertou todas as mulheres das gerações seguintes, nos libertou da submissão, nos desobrigou a aceitar um presente que não nos represente, sinalizou que podíamos ter voz, ter atitudes, ter desejos, conhecimento e reconhecimento.


Duas décadas haviam se passado, quando em um Natal fatídico, eu, a neta de Virgínia Bardo e Felício Lambert, também batizada como Virgínia fui presenteada com um vestido igual a um que eu já tinha e fora comprado na mesma loja. Enganos acontecem, mas o presenteador, com o qual tinha vivido mais da metade da minha vida, havia me dito dias anteriores que odiava todos os meus vestidos, que eu parecia a minha mãe, D. Norma, quando os usava. Sinto orgulho quando sou comparada com minha mãe, mas, entre eu e minha mãe havia quarenta anos de diferença. Como além do nome, herdei também a natureza ruim da minha avó Virgínia, levei o vestido até a pia da cozinha, despejei um litro de álcool sobre ele e o queimei.


O fogo queimou o presente, o passado e o futuro, os sonhos e os investimentos de uma vida arderam nas chamas, como em um processo alquímico todos os elementos sofreram transmutação, a minha raiva foi se transformando em uma serenidade quase sublime. As cinzas depositadas na cuba da pia era o que havia restado do investimento de uma vida, sinalizando que era hora da partida, talvez o relógio estivesse atrasado, talvez eu tenha atrasado o relógio, mas era hora da partida, e essa natureza ruim que herdei da minha avó Virgínia me trouxe até aqui.



Maria Angelina Marzochi

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